Comidas

Lições do Chefs na Rua

Multidão no domingo, durante o Chefs na Rua, evento que reuniu vários chefs dentro da Virada Cultural (Crédito: Pedro Marques)

Por Beatriz Marques e Pedro Marques

A festa foi grande. O evento Chefs na Rua, que fez parte da Virada Cultural deste final de semana, deu o que falar. Foram 22 chefs de cozinha que deixaram seus restaurantes para preparar comidas em barracas no elevado Costa e Silva, o popular Minhocão, na região central de São Paulo.

Os episódios que se sucederam já são de conhecimento de boa parte dos leitores. Mas o importante é frisar os pontos positivos e negativos da empreitada.

A galinhada de Alex Atala já era uma tragédia anunciada. Comida de graça para alimentar somente 500 bocas, numa madrugada fria de uma cidade em que a comida de rua é proibida, só poderia dar confusão. Ainda mais se somada à fama do chef, que é ícone para admiradores da cozinha e levou muitos deles ao evento somente para vê-lo – vale lembrar que na semana passada, o D.O.M., restaurante da Atala, havia sido eleito o 4º melhor do mundo, pela revista inglesa Restaurant. Uma questão: por que só duas atrações (Alex Atala e Erick Jacquin, com a sopa de cebola) foram programadas para a noite? Com mais barracas, sem dúvida a multidão se dissiparia de forma mais ordenada.

A bagunça começou na falta de informação. Ao chegar ao Minhocão, pela alça da rua Helvétia, não havia um cartaz sequer falando do evento, indicando a direção. A fila gigantesca formada era de dar pena. Afinal, as senhas para a retirada da galinhada já haviam sido distribuídas, mas ninguém da organização fez o favor de avisar. Uma grade com alguns seguranças separavam a multidão da barraca da galinhada, onde os cozinheiros da equipe de Atala iniciavam os preparos. Mas à 0h, a aglomeração era enorme e a fila já não tinha mais regra. E o pior: outra alça de acesso ao Minhocão foi aberta e muitas pessoas conseguiram chegar próximo à barraca, o que deixou o povo “engaiolado” revoltado. Por isso, não demorou muito para a invasão total acontecer. Muitos que tinham a senha, não conseguiram garantir sua marmita. E outros que passaram horas na fila, nem conseguiram chegar perto da barraca, muito menos ver o chef-celebridade: a organização recomendou que Atala não aparecesse, por questões de segurança. Revolta com razão.

Agora, será que a organização da Virada Cultural não sabia que uma multidão era prevista para o Chefs na Rua? O evento O Mercado, que aconteceu semanas antes, deu uma dimensão do interesse do público para conhecer e provar as comidas de chefs renomados. Falta de aviso é que não foi…

O chef Raphael Despirite, do Marcel, preparando os cachorros-quentes (Crédito: Pedro Marques)

No domingo, o evento parecia estar mais controlado. Mesmo com as dificuldades enfrentadas pelos chefs, como as barracas não estarem prontas no horário combinado, falta de pontos de eletricidade e de funcionamento de equipamentos, todos se mostraram animados, mesmo cansados. Logo cedo, por volta das 10h, o Minhocão já estava relativamente cheio, com muitas pessoas provando os pratos ou petiscos criados pelos chefs e algumas barracas lotadas, como a de Raphael Despirite, do Marcel, que servia uma versão afrancesada do cachorro-quente, ou a do hambúrguer de pato, de Renato Carioni, do Così.

Por volta do meio-dia, a desorganização voltou a trazer problemas para quem tentava provar as comidas levadas ao Centro. Todas as barracas vendiam tíquetes, o que ocasionou dois tipos de fila: uma para comprar o tíquete e outra para pegar a comida. As antigas quermesses estão aí para mostrar a lição: caixas precisam ser independentes das barracas. Compram-se as fichas em locais isolados – poderiam estar em cada ponta do evento, para os visitantes se abastecerem de tíquetes logo na entrada, para então ficar em uma só fila, na barraca desejada.

Outra dúvida: por que deixar as barracas tão próximas umas das outras? O tumulto era grande, pois as filas se fundiam, não sabia onde terminava uma e começava outra. Não dava para transitar entre pessoas que tentavam comer, outras com crianças de colo ou carregando bicicletas. Se tivesse mais espaço entre as barracas, o fluxo seria melhor sem dúvida – e pelo tamanho do Minhocão, espaço não era o problema.

A boa notícia é que muitos visitantes estavam satisfeito com o que comiam – reflexo do árduo esforço dos chefs participantes  –  e, mesmo com todo o tumulto, a alegria prevalecia entre os comensais. São Paulo é carente de comida de rua e eventos como esse deram um suspiro de esperança para aqueles que querem conhecer mais os sabores que a cidade tem a oferecer. É mais um alerta para que a comida de rua seja liberada na capital paulista e que não precisemos esperar mais um ano para um evento como esse acontecer. Afinal, a gastronomia é cultura e cultura é para todos. Sem distinção de classes.