Bebida

Depois da salvaguarda, o desafio é aumentar o consumo de vinho no Brasil

O acordo para o aumento do consumo de vinhos merece um brinde, com espumante brasileiro

Por Suzana Barelli

O relógio passava das 11h30 nesta segunda-feira, quando Carlos Raimundo Paviani, diretor executivo do Ibravin, afirmou, com todas as letras, que as associações de produtores brasileiros estavam retirando, ainda hoje, o pedido de salvaguarda para o vinho nacional junto ao Decom, o Departamento de Defesa Comercial, do Ministério do Desenvolvimento. O anúncio foi feito durante coletiva de imprensa convocada para divulgar o acordo de cooperação a favor do aumento da venda e do consumo de vinhos, assinado pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), pelas duas associações dos importadores de vinho (Abrabe e ABBA), de um lado, e pelas quatro entidades brasileiras – Ibravin, Uvibra, Fecovinho, Sindivinho – ligadas à produção de vinho brasileiro. Em março deste ano, estas associações haviam entrado com o pedido de salvaguarda para proteger o vinho nacional do importado junto ao governo federal.

Com o anúncio, sai de cena definitivamente a salvaguarda e entra a cooperação entre produtores, importadores e supermercadistas, como antecipou este blog na última sexta-feira. Primeiro, todas as partes envolvidas neste acordo se comprometem a agir para elevar para 27 milhões de litros o consumo de vinhos finos brasileiros já em 2013. O volume deve ser aumentado paulatinamente até chegar aos 40 milhões de litros em 2016. A meta é ambiciosa – a previsão é que neste ano sejam consumidos 19 milhões de litros de vinhos finos nacionais.

Para chegar a este número, os supermercados terão um papel fundamental. Hoje, a estimativa de Márcio Milan, vice-presidente da Abras e um dos responsáveis para costurar o acordo, os supermercados são responsáveis por cerca de 70% das vendas dos vinhos brasileiros. Pelo acordo, os supermercados se comprometem a aumentar a sua porcentagem de rótulos nacionais em suas gôndolas, chegando a 25% das garrafas de vinho. Nos demais estabelecimentos varejistas, esta porcentagem deve chegar a 15%. Parcerias entre vinícolas nacionais e importadoras também devem ajudar a aumentar a distribuição e a venda dos rótulos brasileiros. Orlando Rodrigues, vice-presidente da ABBA, adianta que sua importadora, a Premium, negocia para trabalhar com uma vinícola de Santa Catarina. E a Premium não é a única importadora com esta proposta.

Ao lado das ações para o aumento do consumo – muitas delas ainda serão definidas em reuniões entre as associações –, supermercados e importadores se comprometem a não trazer vinhos finos a preços considerados aviltantes. Aqui, não há, ao menos por enquanto, uma definição de qual seja este valor mínimo.

Estas ações (e outras mais) têm a meta de aumentar o consumo de vinhos dos atuais 1,9 litro por habitante por ano para 2,5 litros até 2016. Juntos, todas as associações falam em pleitear, junto ao governo, a diminuição de impostos – uma reivindicação é reduzir de 25% para 18% o ICMS dos vinhos no Estado de São Paulo, o principal mercado consumidor. Henrique Benedetti, presidente da Uvibra, diz que os produtores também estão negociando propostas para a securitização das dívidas agrícolas, e acesso a linhas de crédito do BNDES para capital de giro.

São ações não previstas no acordo, mas que devem ajudar o setor. Uma delas já foi anunciada pelo governo na semana passada, que foi o programa de escoamento da produção de vinhos finos e de mesa pela exportação a granel. “Isso deve diminuir o estoque das vinícolas e deixar espaço para recebermos a próxima safra”, afirma Benedetti. As associações de produtores, ainda, mantém a promessa de investir R$ 200 milhões para a melhoria da qualidade do vinho brasileiro, conforme previsto no pedido de salvaguarda.

O acordo vem sendo negociado desde maio deste ano e acompanhado de perto pelo governo. Ganhou força quando a análise técnica do processo definiu que não havia motivos para implementar a salvaguarda para os vinhos nacionais e sofrer todas as retaliações dos países produtores de vinho. Mas durante todo este período havia o temor, dos importadores e dos supermercadistas, que a salvaguarda fosse implementada por razões políticas. Com o acordo divulgado hoje, o setor do vinho comemora com espumante – nacional, de preferência.