Cultura

Meu final de ano em Barcelona

A nossa "bûche de Réveillon"

Por Patricia Schmidt (texto e fotos)

Das festas de Natal e Ano-Novo, são poucas as coincidências entre Barcelona e São Paulo. Na cidade catalã quase não se cultua o Papai Noel: são os Reis que trazem os presentes, embora o “tió” adiante algumas pequenas lembranças às crianças. Para quem não conhece, o tió é um tronco oco, como a árvore de Natal, em que as crianças colocam pedaços de frutas num pratinho. Então os pais retiram esse pratinho para as crianças pensarem que o tronco “comeu” as frutas. No dia 24, as crianças batem no tronco com um pedaço de pau, enquanto disfarçadamente seus pais fazem com que saiam de seu interior algumas lembranças de Natal.

De toda forma, o frio e a celebração pós-Natal de San Estevão, no dia 26, evidenciaram ainda mais a falta dos amigos, da família e das tradições do meu País, permeando de melancolia e uma pontinha de tristeza estas festividades.

Ferran Adrià e Juan Mari Arzak na nossa cozinha

Por isso, de Natal eu pedi um Ano-Novo alegre, sem mais pretensões. E perdi a respiração (antes de gritar SOCORRO!!!), quando fui comunicada de que os chefs Ferran Adrià e Juan Mari Arzak vinham celebrar a entrada de 2013 com a gente, em casa. O que eu poderia oferecer a estes dois craques mundialmente conhecidos da gastronomia? O que incluir na degustação? Se eu tivesse três desejos, quais da gastronomia brasileira saciaria? Vinho, champanhe ou optar pelo cava já que estamos na Catalunha?

E começou o dilema, que me tirou duas noites de sono: serviria pão de queijo, caipirinha, croquete e coxinha? Pernil, tender ou peru? Moqueca e cuscuz? Torta de mexerica, quindim, musse de coco queimado ou brigadeirão?

Como Deus é mesmo brasileiro, no meio de tantas perguntas, Ferran avisou para eu não me preocupar com nada, pois eles levariam tudo. Eles decidiram que entrariam em 2013 com os amigos fazendo o que mais gostam, cozinhando e desfrutando. Perfeito! Confesso que me diverti horrores e comi o melhor banquete onde mais gosto de estar: em casa.

Assustei-me com a quantidade de coisa que trouxeram. Depois que Ferran tirou do bolso um papel com o cardápio do que havia pensado para a nossa última noite do ano, tive certeza de que seria uma festona, com muito tempo dedicado a comer e beber.

A dupla "aprontando" a ceia

Sem cerimonia alguma, Ferran e Juan Mari buscavam frigideiras (sim,  preferem cozinhar nas frigideiras) e todas as outras ferramentas que pudessem precisar – da concha ao mandolim, enquanto faziam brincadeiras entre eles… “Juan Mari, há quanto tempo você não pica uma cebola? Os pedaços estão de tamanhos diferentes” – perguntou Ferran, aos risos. E Juan Mari respondeu: “Cebola? Quem foi que te vendeu isto? Te enganaram”.

A bebida da noite foi o champanhe, servidos em taça de vinho, e cada uma das sete garrafas foi pensada para algum dos pratos. O cardápio foi variado, com tudo que lhes apetecia comer e cozinhar:

Camarões

Vale explicar que descascam à mesa o crustáceo, que passou poucos segundos por água fervida e tem textura perfeita. Eles “chupam” o suco da cabeça do camarão, pois, para eles, é uma incomparável iguaria.

As trufas negras em lascas

Trufas negras

Em lascas, a trufa recebeu um golpe de forno, com azeite extravirgem e sal grosso, que comemos com pão da casa (Escribà), acompanhada de champanhe Cristal.

Calçots

Muito tradicionais na Catalunha, são consumidos principalmente de novembro a abril. Para quem não conhece, é um tipo de um broto de cebola cultivado de forma especial, assada em brasa e da qual se come apenas a parte branca, acompanhada de um molho específico, o romesco. Entre os ingredientes que compõe o molho estão amêndoas, alecrim, tomate, alho, azeite, sal, pimenta e ñoras (um tipo de pimentão, também conhecido de “pimiento bola”).

Os pulpitos

Pulpitos

São pequenos polvinhos, que foram preparados com ervilhas e menta cozidas ao vapor sobre presunto ibérico refogado.

Tordos e becadas

São dois tipos de aves de caça, sendo que a segunda lembra muito a codorniz (no meu modesto entender), acompanhadas de “camagrocs” (ao pé da letra seria perna amarela), cogumelos silvestre de cor amarelo alaranjada.

Arzak e as angulas

Angulas

Para terminar, as angulas frescas, um tesouro da gastronomia, principalmente basca, salteadas em azeite e alho, preparadas por Arzak. A angula é um filhote da enguia jovem, com 2 a 3 anos, com 6 cm de comprimento e 1 ou 2 grs de peso. Único filhote de peixe permitido pela lei de pesca na Espanha, com valor de mercado altíssimo, e de sabor pronunciado.

Uvas

Nos últimos doze minutos do ano que termina, por tradição, comem-se 12 uvas, uma por segundo, com direito a um pedido para o ano que começa. E assim foi. Antes que as sobremesas pudessem chegar à mesa, já era 2013.

Sobremesas

Preparei uma musse de coco queimado e baba-de-moça como Deus manda. Digo isso, porque se tem algo que eles (e talvez só eles) poderiam notar no meio de uma sobremesa era o coco de pacote. Portanto, consegui emprestado com uma amiga cearense que vive aqui em Barcelona um rala-coco, como aqueles das barraquinhas de tapioca de Olinda. Quebrei e ralei coco por coco. Embora demasiadamente doce para o paladar deles, ambos acharam diferente e saborearam algumas colheradas.

Escribà (esq.) e Arzak na hora da ceia

Christian Escribà, meu marido, preparou um “bûche de Réveillon”, versão do bûche de Noël feito com uma massa de avelãs, praliné e chocolate, finalizado com crocante de amêndoas e banhado em chocolate.

Muito papo, cafés e gim tônica para terminar, como não poderia ser diferente.

E o meu desejo depois das 12 uvas? Que a última noite do ano que se inicia seja igualmente alegre, divertida e saborosa. Concordo com o que disse Heston Blumenthal uma vez: “Não importa o quão complexa, brilhante ou criativa seja a comida, o resultado mais importante é a emoção que se obtém dela”.

Feliz 2013!