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Um almoço inesquecível no melhor restaurante do mundo

O El Celler de Can Roca, eleito o melhor do mundo em 2013 pela revista "Restaurant". Crédito: Divulgação

por Suzana Barelli

No ano passado, perdi uma aposta por cravar que o El Celler de Can Roca seria eleito o melhor restaurante do mundo, pela revista inglesa Restaurant. Perdi. A casa dos três irmãos Roca ficou em segundo lugar, atrás do dinamarques Noma, pelo segundo ano consecutivo. Agora, em 2013, nem pensei em apostar – achava que o nosso Alex Atala, do brasileiro D.O.M. seria o primeiro (os boatos dessa  “vitória “ de Atala estavam fortes na cena gastronômica paulistana). E o El Celler ganhou.

Deveria ter apostado. Até hoje, o almoço nesse restaurante de Girona, numa viagem de férias em setembro de 2011, tem lugar de destaque em minha memória gastronômica. Foi, sem dúvida, a melhor refeição da minha vida, pela qualidade dos pratos apresentados, pela surpresa e consistência dos sabores (eles sabem brincar como poucos com as texturas dos alimentos) e pela carta de vinhos. Tudo isso envolvido numa simpatia única, que nos faz sentir em casa, mesmo estando em um restaurante super estrelado.

O restaurante tem três cartas de vinhos: uma para brancos, outra para tintos e uma terceira para espumantes e fortificados. Crédito: Milton Gamez

Juan, Josep e o caçula, Jordi, fazem uma gastronomia que combina os pratos da Catalunha, sua terra natal, com técnicas vanguardistas e com uma hospitalidade marcante. Assim que chegamos, por exemplo, Juan fez questão de nos apresentar a cozinha. Explicou sobre todas as engenhocas – digamos que o thermomix, objeto de desejo de 10 entre 10 chefs, é um dos equipamentos mais corriqueiros de lá. E contou com orgulho que dois brasileiros estavam trabalhando na casa – um deles era o Jefferson Rueda, que fazia estágio antes de abrir o paulistano Attimo. Terminado o tour, Juan brincou com minha filha e nos levou a mesa, ao lado de uma parede de vidro, bem ensolarada.

Escolher o cardápio foi fácil – tinha a opção de um menu degustação de oito pratos e outro de 16. Escolhemos o maior. O difícil, num primeiro momento, foi escolher os vinhos. A carta é formada por três livros, um com os vinhos brancos, outro com os tintos e o terceiro com os espumantes, digestivos, Portos etc. E os três chegam à mesa num carrinho. Mas havia também a opção do menu degustação harmonizado, com uma taça de vinho para cada prato. Optamos por ela e logo recebemos um cava elaborado especialmente para os Roca. Afinal, estávamos na Catalunha, a terra destes espumantes espanhóis.

Josep Roca e Suzana Barelli conversam sobre vinhos no El Celler de Can Roca. Crédito: Milton Gamez

Foi a vez de Josep Roca chegar à mesa. Perguntou sobre nossas preferências e, sabendo da minha paixão pelos vinhos, nos convidou para conhecer a adega no final da refeição. Ao anotar o pedido, perguntou se poderia fazer uma carninha para a minha filha, que obviamente não iria no menu degustação – e logo chegou a mesa um corte alto, macio, de carne – acho que um filé mignon – acompanhado, garanto, do melhor purê de batatas que ela já comeu.

O Yin-Yang, na versão dos irmãos Roca. Crédito: Milton Gamez

As fotos a seguir dão uma vaga ideia do que foi o almoço. Para cada prato, uma surpresa de sabores, e uma harmonização perfeita. Muitos frutos do mar, típicos desta região da Espanha, todos levíssimos, surpreendentes a cada mordida. Todos elaborados com uma técnica apurada, das espumas à crocância das espinhas de peixe. Mas tudo muito longe da ideia de comida molecular do senso comum.

No final, um doce de chocolate para minha filha, com a explicação de que ela não iria gostar das sobremesas do menu. Confesso que ela também não gostou da musse de chocolate amargo com folha de ouro, que foi devorada pelo meu marido.

A delícia de descobrir que as escamas do peixe têm uma textura crocante surpreendente e muito sabor. Crédito: Milton Gamez

Terminada a refeição, fomos conhecer a adega, imensa e única. Cada vinho tem uma história e Josep parece conhecer todas elas. Ele gosta dos vinhos com personalidade, muitos têm um toque mineral forte e nenhum (acho) tem muita madeira ou aquela fruta super madura. A adega é dividida em estações e cada uma delas é decorada com objetos, como seda ou madeira, que ajudam Josep a descrever os vinhos.

Pagamos a conta – ainda comprei um perfil da casa, com notas bem cítricas – e fomos para a pracinha perto do restaurante. Enquanto minha filha brincava no parquinho, Josep e Joan passaram por lá, acho que no caminho de suas casas. E pararam para uma conversa descompromissada, daquelas que você espera do dono de um restaurante de bairro. E, assim, eles provaram que a simpatia e a hospitalidade também têm espaço na alta gastronomia.