Bebida

A receita do Enclave

Por Suzana Barelli

O chileno Felipe Tosso e o australiano John Durval, em vinhedo da Ventisquero

Uma das magias do vinho, em minha opinião, está na chamada assemblagem, blend ou, se usarmos o termo em português, na mistura. A alquimia de mesclar uvas ou vinhos diferentes e obter uma bebida melhor é um dos bons mistérios do vinho. Por isso, adoro quando tenho a oportunidade de entender um pouco mais caldeirão do enólogo. Para o lançamento do Enclave no Brasil, o mais novo cabernet sauvignon premium chileno lançado por aqui, o enólogo Felipe Tosso, da Ventisquero, trouxe na mala diversos vinhos que darão origem ao blend de 2012 do vinho. São cinco vinhos já prontos, que estão amadurecendo em barricas de carvalho.

O Enclave, lançado a R$ 390, é o mais novo tinto premium chileno

Como é um projeto ainda iniciante, Tosso e o australiano John Durval, que criaram o vinho a quatro mãos, optaram por comprar uvas de terceiros, ao invés de usar algum lote dos mais de 200 hectares de vinhas da Viña Ventisquero. Eles tiveram a oportunidade de comprar uvas de regiões que eles acreditam ser as melhores para o cabernet sauvignon chileno. E o cabernet, a espinha dorsal do vinho, vem de Pirque, zona clássica para esta cepa no Chile – Almaviva e Don Melchor, por exemplo, dois dos grandes cabernet chilenos, têm suas uvas nesta região. E o Enclave conta com cabernet de dois vinhedos de Pirque, o de San Juan de Pirque, mais exuberante, com muitas frutas maduras, cassis, especiarias; e o de el Principal, de perfil mais austero e com ótima acidez. Os dois são, também, bem potentes, capazes de necessitar de 20 meses de carvalho francês para dosar os seus taninos.

Mas o vinho tem temperos, e esta é sua graça. No perfil do Enclave, estão 80% a 85% de cabernet sauvignon e mais pequenas porcentagens de carmenère, cabernet franc e petit verdot. O carmenère vem de uma vinha velha, com produção baixíssima, entre 0,8 e 1 quilo por planta, como manda todo bom carmenère. A cabernet franc também vem do Maipo e, de tão perfeita que estava na taça, deveria ganhar um vinho só com a cepa. E a petit verdot 2012 trouxe um tanino tão elegante e boa dose de mineralidade.

A sabedoria do enólogo está em definir a porcentagem correta de cada vinho no blend final, o que varia a cada safra. E isso sempre me pareceu impossível. E eu adoro a lição de conseguir perceber como cada variedade ganha com o blend.

O Enclave 2011, lançado no Brasil, é vendido por R$ 390, importado pela Cantu.