Bebida

Em defesa do cabernet franc

Frederico Benegas Lynch, da Bodega Benegas

Por Suzana Barelli

Passei toda a entrevista com Federico Benegas Lynch tentando entender se ele era tímido ou econômico na descrição de seus vinhos. Em quase uma hora de conversa, o sucinto Benegas destoou da maioria dos produtores, que gostam de falar dos seus brancos e tintos a exaustão. Nas respostas, não raro ele preferia citar a opinião de um crítico internacional sobre seus rótulos a explicar a bebida ou contar uma história sobre ela. Terminada a conversa, fui provar seus tintos, durante o evento Decanter Wine Show em São Paulo. Ali, com a taça na mão, ficou claro que é a timidez que marca este produtor. E que o seu cabernet franc vale o esforço de vencer a timidez.

O portfólio da argentina Benegas mostra uma predileção maior pelas cabernets do que pelo malbec?
O malbec, na França, não era uma variedade realmente fina. No século 20, todo mundo tinha malbec porque nos anos em que o vinho fino valia, era vendido como malbec. Se não valia, vendia como vinho comum, sem perder o volume. No clima desértico da Argentina, ele vai muito bem, porque não tem o clima úmido da Franca. Eu, pessoalmente, amo os vinhos com o estilo de Bordeaux e creio que o malbec, como se faz agora, dá um vinho fino, mas os cabernets e o merlot são vinhos superiores ao malbec. Robert Parker [grande crítico de vinho norte-americano] já disse que a Argentina é conhecida por seu malbec, mas que o cabernet sauvignon da Argentina não tem nada a perder com os cabernet do mundo. O mercado de malbec é relativamente pequeno. O mercado de cabernet é bem maior. Falta a Argentina ser reconhecida pelo seu cabernet sauvignon.

Mais do que o cabernet sauvignon, o senhor é conhecido pelo cabernet franc.

Sim. Temos um vinhedo de 120 anos, que o meu bisavó plantou, em pé franco [sem porta-enxerto]. Prefiro o pé franco que mantém 100% das características varietais. A cabernet franc é uma cepa emblemática em Bordeaux, utilizada em Medoc, em Saint Émilion e em Pomerol, as três sub-regiões mais famosas de Bordeaux.

A fachada da vinícola, que voltou ao controle da família em 1999

Mas nenhuma destas regiões elabora um 100% cabernet franc, como o senhor faz na Argentina.
Sim. Faço para as pessoas provarem, para conhecerem o estilo. Qual foi o maior mérito norte-americano? Foi elaborar os vinhos varietais, o cabernet, o merlot, o syrah. E temos um bom êxito com o nosso franc puro. O Michel Rolland [enólogo consultor de mais de 100 vinícolas no mundo, que já trabalhou na Benegas] diz que este vinho é um ícone no mundo. Não diz que é melhor ou pior, mas que é um ícone no mundo.

O senhor tem também um 100% sangiovese.
Sim, de um vinhedo de 80 anos, que meu tio avó trouxe as mudas, também cultivado em pé franco. Em Mendoza, 7% dos vinhedos são de sangiovese, com a uva usada para um vinho comum. Fui o primeiro a fazer um sangiovese fino. A Wine Advocate [publicação de Robert Parker] já escreveu que nosso sangiovese passa por um Montalcino. E Steven Spurrier [principal articulista da revista inglesa Decanter], já disse que o nosso Meritage é como os melhores de Medoc, mas três vezes mais baratos. O Meritage é uma mescla de cabernet franc, cabernet sauvignon, merlot e petit verdot.

Os críticos estrangeiros parecem gostar dos seus vinhos
.
Os críticos ingleses, sim. A [norte-americana] Wine Spectator, não. A Wine Enthusiast elegeu o Don Tiburcio como best buy junto com outros 100 vinhos do mundo. E, para isso, provou mais de 20 mil vinhos.

Como a família Benegas entrou para o mundo do vinho?

A província de Mendoza, do século 19, produzia trigo e pasto para engorda do gado. As vacas vinham caminhando mil quilômetros dos pampas para serem exportadas para o Chile. Em Mendoza, elas precisavam ganhar peso para cruzar a Cordilheira dos Andes e este era um dos principais negócios da cidade. O outro era o trigo. Quando chegou a imigração europeia, eles começam a fazer trigo mais no litoral e destruíram o trigo de Mendoza. E quando chegou a ferrovia, as vacas já chegavam gordas para cruzar a cordilheira. Assim, Mendoza viveu uma crise econômica muito grande nos anos 1800. Nesta época, meu bisavó disse que o futuro de Mendoza seria a viticultura. Mendoza, no século 19, tinha entre 500 e 1.000 hectares de vinhas plantadas. Meu bisavó foi o primeiro a fundar uma vinícola de forma industrial. Ele trouxe variedades finas da França, antes da filoxera, e fundou a El Trapiche em 1853. Até a década de 1970, a Benegas era a única na Argentina a ter vinhedos de cabernet franc, petit verdot, pinot noir, syrah e algumas outras variedades. Nos anos 1970, vendemos a marca Trapiche.

A sala de barrica, onde tintos como o cabernet franc amadurecem antes de chegar ao mercado

Por que decidiu retornar esta tradição da família?
Na época, tinha quase 50 anos e era sócio de um banco, o CMF, com o meu irmão. E decidi que ia passar o resto da minha vida fazendo algo que realmente gostava. Vendi minhas ações e me voltei ao vinho. Fui o único dos filhos que tinha ajudado meu a pai nos negócios do vinho, eu cresci num vinhedo, me criei na bodega. Meu pai, Federico, foi o primeiro argentino a trazer as ideias de Emile Peynaud [1912-2004, enólogo francês, referência no vinho moderno] para a Argentina. Ele fazia um vinho diferente do argentino na época. Não era oxidado, tinha muitas flores e frutas e era vendido apenas para o mercado local, que desapareceu com a venda da vinícola.

E quando foi isso?
Meu pai faleceu em 1995 e eu recomprei o vinhedo em 1999. Minha mãe, então, me deu o direito de usar a marca Benegas. Fui a França e trouxe, para a nossa primeira colheita, o enólogo da Lynch Bages.  Conversando com os donos da vinícola e cruzando os papéis das famílias, descobrimos que viemos do mesmo pequeno povo de Irlanda, que migraram pela guerra religiosa.

Os seus vinhos já tiveram a consultoria de Michel Rolland e agora, de Paul Hobbs. Por que sempre consultores de renome?
Rolland entrou na segunda safra e ficou até 2012, e agora estamos com Paul Hobbs. Um consultor ajuda a estar atento às novas tecnologias, a ter contato com a imprensa internacional. Como o mercado norte-americano é o principal de Benegas, com 60% de produção, e acho que Paul Hobbs vai nos ajudar.

Além do consultor, quem é o enólogo da Benegas?

A bodega não tem enólogo. Eu não sou enólogo, mas entendo bastante de vinho. Em sete anos, fiz 13 colheitas, trabalhando na Argentina e no Hemisfério Norte. Nelas, aprendi não tanto de química, mas do feeling dos pontos de maturação das uvas, de como mexer as barricas, de não extrair os taninos ruins.

Como define o estilo dos seus vinhos?
Não predomina a madeira, tem corpo equilibrado com a acidez, taninos bem marcados, redondos. São vinhos de muito corpo e longos na boca.

Os vinhos da Benegas são trazidos para o Brasil pela Calix, empresa ligada à importadora Decanter (www.calixvinhos.com.br)