Bebida

Mulheres e vinhos

A chilena Ana Maria Cumsille, dos tintos Sideral e Altair

Por Suzana Barelli

Mulheres e vinho é um assunto que sempre me interessou. Lembro que minha primeira palestra teve este tema – foram seis ou sete vinhos feitos apenas por mulheres. Na época, no início dos anos 2000 – não foi fácil achar muito mais do que esta quantidade de garrafas “femininas” no mercado brasileiro. Hoje, uma lista de bons vinhos elaborados por mulheres será enorme, caso contrário deixará de fora muitos bons brancos e tintos.

São vários os fatores para esta, digamos, invasão feminina. Tem desde a maior facilidade para se elaborar vinhos (fazer vinho não é fácil, mas a tecnologia na vinícola e no vinhedo diminui a necessidade do trabalho mais braçal) até o fato de mais mulheres terem chegado ao mercado de trabalho. Não cabe aqui discutir estas questões. Minha ideia é, nesta semana do Dia Internacional da Mulher, provar mais brancos e tintos elaborados apenas por elas. E, entre minha sugestões, estão:

1 – um vinho da Susana Esteves. Sempre brinco que vinhos feitos por Suzanas são sempre muito bons. Susana é uma enóloga espanhola, mas que faz vinhos em Portugal, primeiro com a família Roquete, da Quinta do Crasto, no Douro, e atualmente no Alentejo. Ainda não provei seus vinhos autorais, mas é ela quem elabora os vinhos da família Cabaço, da mãe Margarida, do Monte dos Cabaços, e do filho, Tiago, com os seus rótulos de nomes modernos, como blog, .net e .com, entre outros. O Monte dos Cabaços Reserva Tinto sai por R$ 166, na Adega Alentejana.

A portuguesa Sandra Tavares da Silva, que atualmente elabora vinhos no Douro e na região de Lisboa

2 – Difícil escolher um só vinho de Sandra Tavares da Silva, que trocou as passarelas (ela foi modelo da Ford) pelos vinhedos portugueses. Mas nesta semana fico com o Guru, que mostra que o Douro também pode ser a terra de bons brancos. O vinho sai por R$ 274, também na Adega Alentejana.

Filipa Pato, filha de enólogo, é apaixonada pelo terroir da Bairrada

3 – Devo estar com o olhar muito focado em Portugal. Meu terceiro vinho é o Nossa Calcário Branco 2012, que Filipa Pato elabora com a uva bical e fermenta em pipas de carvalho, na região da Bairrada. É um branco envolvente, mineral, persistente. O Nossa Calcário Branco custa R$ 130, na Casa Flora/Porto a Porto.

Com o potente Casa Real, Cecília Torres é uma das primeiras enólogas do Chile

4 – Cecilia Torres é a enóloga mais tradicional do Chile (e, sempre que pode, foge da questão de vinhos e mulheres). Seu melhor tinto é o Casa Real, um cabernet sauvignon 100% que melhor decifra a alma chilena. Há quem o defina como um vinho masculino, pela sua potência. A vinícola Santa Rita está mudando de importadora e seus rótulos devem começar a chegar por aqui ainda em março, trazidos pela Miolo.

A argentina Susana Balbo, que tem sua própria vinícola nos pés da Cordilheira dos Andes

5 – Da Argentina, outra Susana, agora a Balbo, que toca sua vinícola, a Dominio del Plata, com a ajuda de seus dois filhos, bem aos pés da Cordilheira dos Andes. Recentemente provei (e aprovei) o BenMarco Torrontés 2013, um novo torrontés de Susana, que começou sua carreira em Salta, no norte da Argentina, elaborando exatamente brancos com esta variedade tão identificada com seu país. A Cantu traz os vinhos da Domínio del Plata para o Brasil.

6 – Perseverança é a melhor palavra para definir a enóloga chilena Maria Luz Marin. Ela não sossegou até obter, do governo de seu país, autorização para plantar seus vinhedos em uma montanha na região de San Antonio. Hoje, esta zona muito próxima ao oceano Pacífico é uma das apostas do vinho do país andino, por seus brancos e tintos de boa concentração e frescor. Primeiro, foram seus pinot noir que fizeram sucesso, depois, seus sauvignon blancs. Mas ela também elabora um syrah bem elegante, vendido por R$ 225 na Zahil.

7 – Adoro os vinhos da chilena Ana Maria Cumsille, tanto o Sideral como o Altair. São tintos complexos, mas muito elegantes. No ano passado, participei de uma prova de chilenos de safras recentes e antigas, para mostrar que o país começa a elaborar tintos que envelhecem bem. Na degustação, Ana Maria apresentou a primeira safra do Altair, a de 2002, e também a de 2010. A surpresa foi a de 2002, a primeira safra do tinto, que, na taça, se mostrou ainda muito jovem, com notas frutadas, mescladas com os tostados. O Altair 2008 é vendido por R$ 433, na Grand Cru.

8 – O Brasil também tem as suas enólogas. Uma delas é Rosana Wagner, que tem uma vinícola junto com o seu marido quase na fronteira com o Uruguai, no paralelo 31. Rosana gosta de elaborar brancos e tintos que envelhecem bem. Um deles é o Cordilheira de Santana Tannat 2005. Pelo site da vinícola (www.cordilheiradesantana.com.br), é possível comprar uma caixa com seis garrafas por R$ 377,40.

9 – A espanhola Sara Peres é apontada por muitos como uma das melhores enólogas da nova geração do Priorato. Filha de José Luis Péres, um dos pioneiros nesta região espanhola, Sara está a frente da vinícola Mas Martinet, que é importada pela Grand Cru.

10 – A simpática italiana Donatella Cinelli Colombini é a única não enóloga da lista. Herdeira da vinícola da família em Montalcino, Donnatela é muito atuante na Associazione Nazionale del Donne del Vino, um dos mais antigos grupos de mulheres no mundo de Baco, fundado em 1988. Ela tem até o Brunello Prime Donne. Seus vinhos chegam ao Brasil pela Interfood.