Bebida

A prova de cinco Tondonias

Barrica na vinícola espanhola (foto: Luís Felipe Campos)

Por Luís Felipe Campos

A Bodega López de Heredia – Viña Tondonia, em Rioja, é tema de reportagem da edição de agosto da revista Menu, que está nas bancas. Bodega mítica, que sabe aliar a tradição com os tempos modernos, a vinícola tem uma maneira peculiar de elaborar seus brancos e tintos. Um exemplo é que apenas os seus Gran Reservas, que nascem em anos de qualidade excepcional, são feitos 100% com as uvas de uma única safra.

Os demais rótulos, aqui incluídos os reservas e os crianzas, são elaborados com 85% das uvas do ano indicado na etiqueta. Os 15% restantes são de vinhos do mesmo vinhedo, mas de outras safras. “Elaboramos estes vinhos todos os anos, que refletem a nossa filosofia e o espírito de nossa vinícola. Mesclamos as safras para que a qualidade se mantenha homogênea e constante, ano após ano, independentemente da safra. Porque o importante é o vinhedo que origina o vinho”, afirma María Vicente, gerente de exportação da vinícola.

Com esta filosofia, tive a oportunidade de degustar cinco vinhos durante a minha visita à vinícola. Só não provei o Gran Reserva, pouco disponível no mercado. A seguir, os meus comentários sobre os brancos e tintos. Os rótulos da López de Heredia são importados para o Brasil pela Vinci.

Gravonia 2004

Proveniente de vinhedo de 24 hectares com idade média de 45 anos. O solo é pobre, pedregoso e calcáreo, com orientação sul e com cultivo que segue a agricultura ecológica. O vinho é um 100% viura, que passa quatro anos por barricas de carvalho e tem 12,5% álcool

Nota de degustação: cor amarela intensa, seus aromas remetem a frutas secas (nozes), mel e uma elegante madeira. Na boca é fresco, com acidez alta, boa persistência e álcool perfeitamente integrado ao conjunto. Ainda tem uma longa vida pela frente.

Tondonia Reserva Blanco 1999

Proveniente do primeiro vinhedo adquirido pelo patriarca, na margem direita do rio Ebro, ocupando 100 hectares, onde se planta uma pequena parcela de viura e malvasia. O vinho é elaborado com 90% de viura e 10% de malvasia; amadurece por seis anos em barrica e 12% de álcool

Nota de degustação: Dourado com reflexos âmbar. No nariz, traz notas de flores secas, mel, notas oxidativas e aromas complexos remetendo aos subterrâneos da bodega (terrosos, minerais). É untuoso na boca, com acidez incrível para a idade, corpo alto e longa persistência. Complexo e interminável, incrivelmente jovem para a idade.

Cubillo 2006

Vinhedo com vinhas de aproximadamente 40 anos, exclusivo de uvas tintas, plantadas em solo argilo-calcáreo. Comercializados como Crianza, poderiam facilmente ser classificados como Gran Reservas, pelas excelentes condições do vinhedo e tempo de amadurecimento na barrica (três anos nas adegas da vinícola), apesar de ser o vinho com preço mais baixo da linha. É o segundo vinho mais produzido, com 85.000 garrafas por ano. É elaborado com 65% de tempranillo, 25% de garnacha, e o restante dividido entre mazuelo e graciano. Envelhece por três ano em barrica e tem 13% de álcool.

Nota de degustação: De cor rubi brilhante, com discreta evolução, seus aromas trazem notas de frutas escuros, mineral e um toque elegante de carvalho. Na boca, apresenta boa acidez e taninos macios integrados ao conjunto, sem que o álcool sobressaia. É um vinho de estilo mais leve, feito com espírito de abastecer o mercado local, onde é tomado em copos.

Bosconia 2003

Procedente de um vinhedo denominado El Bosque, faz uma clara alusão a vinhos que serviram de inspiração ao fundador Don Rafael. Inicialmente elaborado com uma porcentagem de pinot noir, hoje são plantados tempranillo, garnacha, mazuelo e graciano nos 15 hectares situados ao lado do Rio Ebro e próximo da vinícola, como todos os outros vinhedos. O espírito da Borgonha está presente tanto no estilo deste vinho, traduzido pela sua complexidade e elegância, como pela garrafa, borgonhesa. É elaborado com 85% de tempranillo, 15% de garnacha e o restante entre graciano e mazuelo. O tinto passa cinco anos em barrica e tem 12,5%  de álcool.
Nota de degustação: Rubi evoluído, com reflexos granada. Seus aromas compreendem toques mais frutados (morango, cereja maduras), diferentemente dos outros vinhos, além de notas florais e toques de oxidação e de carvalho. Na boca, tem acidez e taninos mais elevados, com maior corpo, o conjunto equilibrado por cima. Apresenta persistência longa e ausência de amargor final. E “só” tem 11 anos!

Obs: Calor intenso naquele ano desde maio até setembro, causou grandes problemas, com danos á vegetação. A localização privilegiada, altitude e algumas precipitações oportunas em setembro contribuíram para que o vinhedo conseguisse se recuperar, apesar de ser um vinho mais alcóolico.

Tondonia Reserva 2002

Vinho mais emblemático da vinícola nasce de vinhedos abraçados pela sinuosidade do rio Ebro, formando uma península, com solos mistos de calcário e aluvião, distribuídos em 100 hectares. É o vinho mais produzido, com 250.000 garrafas anuais. É elaborado com 75% dd tempranillo, 15% de garnacha e 10% entre graciano e mazuelo. O tinto passa 6 anos em barrica e tem 12,5% de álcool.

Nota de degustação: Tem cor granada de média intensidade. Seus aromas estavam um pouco fechados no início, mas após aeração revelam notas de cerejas ao marasquino, chá, couro e carne crua. Na boca, uma acidez marcante, com taninos finos e elegantes, e corpo médio, e madeira com integração elegante representada por um traço de baunilha.

Obs: Sem calor excessivo como 2003, porém a safra de 2002 também foi difícil, com as chuvas mais intensas na época de floração das variedades precoces, como a tempranillo, ocasionando uma colheita mais curta.