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O consumidor irá estabelecer com o café a mesma relação que tem com o vinho, acredita Andrea Illy

Andrea Illy, da illycafé (foto: divulgação)

por Cristiana Couto*

 

“No futuro, o consumidor de cafés se transformará num conhecedor, como acontece com o vinho”. É assim, promissor, o futuro dos cafés especiais na visão de Andrea Illy. Em visita ao Brasil em março, para palestra e entrega do primeiro prêmio brasileiro criado para cafés de qualidade, o presidente da illycaffè concedeu entrevista à Menu. Além do prêmio, Andrea comenta a participação da empresa italiana na Expo 2015, exposição mundial que acontece de maio a outubro em Milão e cujo tema é a alimentação. “Com nosso pavilhão, faremos a maior celebração da história do café”, promete.

 

Como será a participação da illycaffè na Expo 2015, cujo tema é “nutrir o planeta, energia para a vida”?

 

Somos parceiros oficiais e vamos conduzir o Coffee Cluster, o pavilhão do café. Faremos a maior celebração da história do café. Vamos retratar o passado, o presente e o futuro do café, da planta à xícara. Falaremos do exotismo da bebida, da sua descoberta, dos processos produtivos. Será um trabalho enciclopédico, uma síntese da cultura do café.

 

Haverá mais alguma mostra, além do pavilhão?

 

Faremos uma exposição digital em 3D. Haverá também o Global Conference Forum, em que apresentaremos novidades e discutiremos as três virtudes do café: prazer, saúde e sustentabilidade. Haverá, entre outras coisas, uma coleta de fundos para ser usada no auxílio contra a pobreza nas comunidades que produzem café e são menos afortunadas. E uma exposição de fotografias gigantes do brasileiro Sebastião Salgado, que fotografou dez países produtores, na Bienal de Arte Contemporânea, em Veneza.

 

Em 2016 a illy comemora 25 anos no Brasil. Qual a sua avaliação dessa atuação?

 

Um enorme sucesso. Atingimos nossos objetivos, que foram melhorar a qualidade do grão brasileiro e comprar 100% do nosso café diretamente do produtor. É também um sucesso para o produtor, que consegue vender seu produto 30% mais caro e, hoje, produz cafés sustentáveis e com certificação. Isso tem um efeito de contaminação em todo o mercado brasileiro. Depois do prêmio que criamos em 1991 (Prêmio Ernesto Illy de Qualidade do Café para Espresso), outras iniciativas surgiram no Brasil, como o Prêmio da Região do Cerrado Mineiro. Quando começamos nosso trabalho aqui, o Brasil era conhecido por vender café em quantidade. Hoje, ele é reconhecido como líder em qualidade.

 

Qual foi o papel de seu pai, Ernesto Illy, nesse processo de qualidade do grão brasileiro?

 

Tudo começou com meu pai, que era considerado o maior especialista de cafés do mundo, mas que também tinha uma ética de trabalho, graças à qual conseguiu criar uma relação boa entre a empresa e o cafeicultor. Ele se foi, mas a estratégia é a mesma: estimular o produtor — que até o início dos anos 1990 vendia café em quantidade, cheio de defeitos e a preços baixos – a investir em qualidade. Isso foi possível graças ao meu pai e aos cafeicultores, que têm muita paixão pelo trabalho e humildade para aprender.

 

O café illy têm as mesmas características sensoriais há mais de 70 anos. Como ele é concebido?

 

Fazemos um blend com nove cafés de diferentes origens, com diferentes características de gosto e aroma. Trabalhamos com cerca de 20 países produtores e 40 áreas de produção. 50% dos grãos que compõem o nosso blend vêm do Brasil.

 

Recentemente, vocês lançaram cafés de origem. Qual a mensagem para o consumidor?

 

Queremos dar a possibilidade a ele de degustar o café como se degusta um vinho. Queremos oferecer a possibilidade de descobrir as características das diferentes notas que compõem nosso blend. Taticamente, é mais um produto para o consumidor, e um reforço do conceito de blend.

 

Qual é o futuro dos cafés especiais?

 

O percurso rumo à excelência continuará, bem como a valorização do terroir e o aumento do número de cultivares (variedades). Isso aumentará a oferta de cafés de qualidade. E, como acontece no vinho, o consumidor vai se tornar um entendedor, diminuindo a distância entre ele e o produtor.

 

*Cristiana Couto é jornalista de gastronomia, doutora em história da alimentação e colunista de cafés da Menu