Bebida

Produtores de Campanha, no sul do Brasil, apostam na qualidade de seus vinhos

Vinhedos da região da Campanha, no sul do Brasil (foto: divulgação)

por Suzana Barelli

 

A primeira vez que visitei a região da Campanha, no sul do Brasil, me surpreendeu a maneira profissional como os seus produtores lidavam com o vinho. Isso foi em 2007, para a inauguração da vinícola da Miolo na zona rural de Candiota (RS). De lá para cá, já visitei a região algumas outras vezes e a sensação é sempre a mesma: se de um lado a Campanha não tem a tradição do vinho, em contraste com a Serra Gaúcha, também não tem os vinhedos em latada (pérgola). E o vinho é uma entre várias das atividades agrícolas de seus produtores.

Essa sensação se confirmou nesta semana, numa degustação de espumantes, brancos e tintos de 11 das vinícolas da Campanha aqui em São Paulo. O encontro foi organizado pela Vinhos da Campanha, uma associação fundada em 2010 e que atualmente reúne 17 vinícolas. Giovâni Silveira Peres, sócio da Batalha Vinhas e Vinhos e presidente da associação, deu a dimensão da região: a Campanha já é a segunda maior região produtora de vinhos finos do Brasil, com 35% deste total. São 2 mil hectares de vinhedos, 180 produtores, alguns pequenos, outros grandes, espalhados da fronteira com a Argentina, em Uruguaiana; com o Uruguai, como em Santana do Livramento, até as cidades de Bagé e Candiota.

Ter vários de seus produtores unidos numa associação é um dos sinais do profissionalismo da região (uma andorinha sozinha não faz verão, já disse o poeta). Juntos, eles têm um discurso de divulgar a Campanha e planejam protocolar, ainda este ano, no INPI, o pedido de indicação de procedência para os seus vinhos. Mas é, principalmente, na taça que se revela a vocação da região. E ela é promissora.

No evento realizado no restaurante North Grill, cada participante trouxe três vinhos para a degustação. Nos espumantes, o destaque foi o Brut da Campos de Cima: fresco, com boa riqueza aromática, custa R$ 66,90. Os poucos brancos provados não me emocionaram, apesar de alguns deles serem bem elaborados.

Nos tintos, a surpresa foi maior. Da Routhier & Darricarrere, o Salamanca do Jarau é um 100% cabernet sauvignon bem interessante, elaborado com leveduras nativas e envelhecido em barricas usadas – para quem procura bons custos-benefícios, o tinto ReD, na mesma vinícola, um corte de cabernet sauvignon com merlot, tem um estilo francês, gostoso, porR$ 38. A Estância Paraizo (que eu não conhecia) apresentou o promissor Don Thomaz y Victoria Cabernet Sauvignon, por R$ 60. O vinho está na sua segunda ou terceira safra e seus donos, o casal Thomaz e Mônica, ainda são bem iniciantes, mas a uva que cultivam é boa e eles sabem colhê-la no tempo certo.

Na Cordilheira de Santana, o destaque era o seu tannat da safra de 2005, já pronto para acompanhar uma boa carne e o seu cabernet sauvignon tinha um bom equilíbrio no paladar. A Guatambu mostrou sua competência no Épico, um tinto potente e moderno, com tannat, merlot, cabernet sauvignon e tempranillo (R$ 155).

Não consegui provar todos os vinhos, mas fiquei curiosa em conhecer o novo rótulo da Vinhetica, uma pequena vinícola sustentável que elabora o Terroir de Rouge e o Terroir de Rosé, que são vinhos leves, com a fruta bem moldada, gostosos, daqueles que pedem uma segunda taça e vendidos por R$ 45. Gaspar Desurmont, o viticultor francês dono do projeto, está elaborando um vinho mais potente para tentar conquistar o paladar brasileiro. A conferir.

No final da degustação, os produtores informaram que fizeram uma parceria com o Empório Frei Caneca, loja de vinhos que fica no shopping de mesmo nome. Os vinhos destes produtores estarão à venda na loja, organizados em uma gôndola específica, ajudando a resolver a dificuldade de comprar vinhos brasileiros.