Bebida

Os brunellos da Toscana mostram as nuances da uva sangiovese

A sala de barricas da Biondi Santi, com botti da Eslovênia (foto: divulgação)

por Suzana Barelli

Aos 24 anos, o italiano Tancredi Biondi Santi começa a se preparar para assumir as vinícolas da família. Seu reinado ainda deve demorar algumas décadas para começar – hoje a mítica Biondi Santi ainda é liderada por seu avô, Franco, e principalmente por seu pai, Jacopo. Mas o jovem, representante da sétima geração dos pioneiros em elaborar o Brunello di Montalcino desde o século 19, já defende com segurança o clone BBS11 da sangiovese grosso, que leva as iniciais de sua família, e viaja pelo mundo para divulgar seus vinhos e a maneira clássica de elaborá-lo. “É preciso manter a tradição, mas podemos mudar uma ou outra coisa”, afirma, em passagem por São Paulo no mês de agosto.

Um exemplo é que desde a safra de 2013 a fermentação alcoólica do brunello é um pouco mais longa (mas ele não diz quanto mais). O tinto, no entanto, continua sendo elaborado em tanques de concreto ou de inox, no caso do brunello Anatta, e em barricas de carvalho da Eslovênia, no Riserva – este feito apenas em safras de qualidade excepcional. E todos os vinhos, inclusive o Rosso di Montalcino, envelhecem em barricas de carvalho da Eslovênia, com tamanhos entre 30 e 130 hectolitros. A inovação, necessária, acontece nos vinhos do Castello di Montepò, vinícola em Maremma, no sul da Toscana, onde Jacopo elabora há mais de duas décadas brancos e tintos mais modernos, inclusive o supertoscano Montepaone, feito com a intrusa cabernet sauvignon, e o conhecido Sassaloro (todos os vinhos da Biondi Santi são importados pela Mistral).

Tancredi, que cursa o último ano da faculdade de enologia, cresceu ouvindo que na Tenuta Grecco, propriedade de 80 hectares em Brunello, se respira a tradição. “Somos a família que inventou a tradição”, resume o herdeiro de Clemente, Jacopo, Ferruccio, Tancredi, Franco e Jacopo. Nos anos 1800, Clemente Biondi decidiu elaborar e engarrafar o tinto apenas com a sangiovese, numa época em que uvas brancas e tintas eram mescladas no mesmo vinho – a prática foi usual até o final da Segunda Guerra Mundial. No século passado, seu avô Franco, por sua vez, se tornou quase um estandarte da tradição e de vinhos longevos, que demoram anos para ficarem prontos, principalmente no episódio conhecido como Brunellogate. Em um escândalo nacional foi descoberto que algumas vinícolas estavam mesclando outras uvas à sangeovese para que o vinho ganhasse coloração mais forte e maior complexidade.

Se o jovem Tancredi respira tradição, não muito distante dali Giacomo Neri traz a modernidade aos brunellos. Com vinhedos em três regiões distintas de Montalcino e um total de 135 hectares, Giacomo conta com uma vinícola que funciona pelo sistema de gravidade – não há bombas para estressar a uva – e comemora, pela quinta vez, o recebimento da nota máxima (100 pontos) do crítico Robert Parker. Foi para o seu Brunello di Montalcino Tenuta Nuova da safra de 2010, que é vendido por R$ 1.860, na Expand.

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Vinhedos em Brunello di Montalcino, da Casanova di Neri (foto: divulgação)

Na Casanova di Neri, vinícola fundada em 1971 por Giovanni Neri, pai de Giacomo, parece haver maior liberdade. Os vinhos são fermentados em tanques abertos e amadurecem na sala de barricas, localizada 30 metros abaixo da terra. “A madeira pode melhorar o vinho e todos os nossos tintos têm passagem por madeira”, conta Giacomo, também em visita ao Brasil no mês de agosto. Ele só não conta qual vinho amadurece em qual tamanho e tipo de barrica, das pequenas de carvalho francês aos grandes botti. “É preciso saber usar a madeira”, desconversa.

Mas as duas casas defendem, quase com fervor, a sangiovese grosso, como a variedade é chamada na região. “Ela resulta em tintos complexos, com taninos sedosos e intensos, e com boa acidez”, afirma Giacomo. Tancredi conta que é a mesma uva que dá origem ao rosso e aos grandes brunellos. A diferença está na idade dos vinhedos – as uvas das plantas jovens, de quatro a dez anos, dão origem ao rosso; vinhedos de 11 a 25 anos vão para o Annata e vinhas velhas, com mais de 25 anos, para o Riserva, sempre com vinhedos cuidados sem herbicidas e pesticidas, mas que não contam com a certificação orgânica. O clone de Biondi Santi, batizado de BBS11, vem sendo cultivado desde o seu ancestral Clemente.

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Jacopo e seu filho Tancredi, batizado com o nome de seu bisavô (foto: divulgação)

Na taça, surpreende como as plantas mais velhas resultam em vinhos mais complexos. Em degustação de um terceiro produtor de brunello que passou pelo Brasil em agosto, a Argiano, uma vila medieval com vinhedos e oliveiras de propriedade do brasileiro André Esteves, o Rosso di Montalcino 2012 se mostrou frutado, mas curto no paladar, em contraste com o “guloso” e complexo Brunello di Montalcino 2009. E, aqui, é de se esperar mais mudanças no vinho, em nome de sua pureza. Desde o início deste ano, a vinícola de Esteves conta com a consultoria do italiano Alberto Antonini, reconhecido como um dos melhores enólogos da atualidade, em prêmio da revista inglesa Decanter. Pelo perfil de Antonini é de se esperar maior foco no terroir – ele faz parceria, em muitos projetos, com o chileno Pedro Parra, um expert em subsolo – e tintos com a fruta mais pura, complexos e gastronômicos. Mas esta resposta virá apenas em safras futuras.

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As safras antigas de Biondi Santi (foto: divulgação)

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A sede da Casanova di Neri (foto: divulgação)