Coluna

A mística – e a frustração – de visitar as trapistas

"A experiência na Westvleteren se resume a consumir no bar, pegar fila, comprar na loja e, quem sabe, espiar poucas partes do mosteiro do lado de fora" (foto: reprodução)

por Roberto Fonseca*

A tensāo era palpável no café In de Vrede, em Westvleteren, na Bélgica. A maioria dos clientes bebia a mais cobiçada marca de cerveja do mundo, mas nāo tirava os olhos da lojinha no canto do bar, onde sāo vendidas as garrafas produzidas perto dali, na abadia de Sint Sixtus. A chegada da funcionária do local, com duas horas de atraso, criou uma fila na porta, ao que ela, irritada, reagiu: “cerveja, só em mais duas horas”. Nāo demorou tanto, e logo uma série de pessoas saía dali com caixas e caixas de cerveja. Eu era uma delas.

Apesar da interessante cena, a experiência na Westvleteren se resume a consumir no bar, pegar fila, comprar na loja e, quem sabe, espiar poucas partes do mosteiro do lado de fora. É bacana, mas deixa a impressão de faltar algo. Conhecer a fábrica, nem pensar. Um monge cervejeiro, mais improvável ainda. Essa é a mística – e um pouco da decepção – da visita turístico cervejeira aos produtores de cervejas trapistas mais antigos da Bélgica (além da Westvleteren, Westmalle, Rochefort, Orval, Chimay e Achel) e Holanda (La Trappe), roteiro que fiz em abril.

O acesso é bastante limitado: só a La Trappe permite visita às instalaçōes com regularidade, e a Orval abre apenas uma vez ao ano, em setembro. Esta última tem um bom espaço informativo, com vídeos, museu e loja, assim como a Chimay, no Auberge de Poteaupré. Ainda assim, fica-se a uma boa distância da fábrica.

A Westmalle também restringe as visitas a um bar próximo, o Café Trappisten, onde apenas apenas um curto vídeo sobre a produção. Na Rochefort, há jardins belíssimos em torno da abadia, mas nem uma fresta para ver o que ocorre lá dentro – ou um “bar oficial” da marca. É justamente nesses bares que são servidas receitas trapistas bastante difíceis de achar fora dali, como a Westmalle Extra e a Orval “verde”.

Não defendo que as trapistas tenham de virar uma “Disneylândia”. Mas uma das melhores partes de visitar outros lugares é dar uma cara àquilo que se conhece – e, no caso, se toma – de longe. Certamente as histórias de cada local teriam outro impacto se vindas de quem faz parte delas, e não apenas de vídeos ou placas.

 

* Texto publicado na coluna Colarinho, da edição 207