Bebida

Cada vez mais, produtores investem nos espumantes ice

Os champanhes e os demais vinhos espumantes podem – sim – ser consumidos com gelo (foto: reprodução)

por Suzana Barelli*

O paradigma foi rompido há seis anos. Os champanhes e os demais vinhos espumantes podem – sim – ser consumidos com gelo. A aparente heresia de ser apreciado dessa forma foi quebrada por uma gigante do setor, a Moët & Chandon, que na época lançou o primeiro champanhe específico para esse consumo, o Ice Imperial. De lá para cá, houve quem torcesse o nariz e quem se propusesse a experimentar a bebida, agora servida em uma taça grande, bojuda, e com algumas pedras de gelo – de três a quatro, como indica a vinícola.

No final de 2016, a Moët decidiu lançar um rosado com gelo para completar a linha. “Assim como fizemos no Ice Imperial, começamos no verão e conforme o consumo for crescendo, vamos oferecer esse champanhe ao longo do ano”, afirma Sergio Degesse, diretor geral da Moët Hennessy do Brasil. O principio do rosé é o mesmo do brut branco: servir a bebida em taças grandes, com gelo. Também no fim do ano, a espanhola Freixenet, líder em cava, lançou o seu ice, com a mesma recomendação de consumo. Mais: as duas empresas não estão sozinhas: desde que o gelo foi, digamos, liberado, diversos produtores apostaram nesse mercado. No Brasil, a Chandon, do mesmo grupo da Moët, sugere o consumo do espumante Passion, um blend das uvas malvasia de cândia, moscato canelli e pinot noir com gelo. Da França, os espumantes Veuve du Vernay, da região da Borgonha, também apresenta o seu ice, nas versões demi-sec e rosé, entre outros exemplos. Alguns, ainda, ousam ao sugerir o espumante não apenas com gelo, mas também com ramos de hortelã e até fatias de pepino ou limão, como um coquetel.

Para manter o atrativo desses espumantes há alguns pré-requisitos. Primeiro, a bebida deve ter uma quantidade de açúcar mais elevada, ou seja, ser classificada na categoria demi-sec, com 32 a 50 gramas de açúcar por litro. Aqui, um parêntese: um champanhe brut pode ter até 12 gramas por litro de açúcar, mas essa doçura é equilibrada com a alta acidez da bebida e muitas vezes não é percebida pelos consumidores. Nos ice, a porcentagem de açúcar é mais alta, já que o gelo, além de refrescar, também dilui a bebida. O Cordon Negro, o rótulo mais vendido da Freixenet, tem 9 g/l de açúcar, enquanto o Ice tem 45 g/l, por exemplo. O Ice Rosé Imperial tem 38 g/l enquanto o rosé da Moët apresenta 9 g/l.

O Passion, vendido por R$ 113, o Freixenet Ice, por R$ 90, e o Rosé Ice Imperial, por R$ 487

Phillipe Mevel, enólogo da Chandon brasileira, explica que os aromas intensos também são necessários nessa categoria. “A medida que o gelo derrete e vai diluindo o espumante, a sensação de doçura diminui um pouco e a da acidez também, na mesma proporção, o que preserva o equilíbrio original. Apenas as intensidades de acidez e da doçura baixam, porém tão sutilmente em função da exuberância aromática original, que é pouco perceptível”, afirma o francês.

O Freixenet Ice, por sua vez, ganhou uma porcentagem da uva chardonnay, enquanto o brut da marca é elaborado apenas com as variedades autóctones espanholas, como macabeo, xarel.lo e parellada. “A chardonnay contribui para realçar as notas frutadas, garantindo mais leveza e permitindo equilibrar o efeito do frio do gelo sem alterar as características do cava”, explica Fabiano Ruiz, diretor-executivo da Freixenet no Brasil. Nos champanhes, a porcentagem entre chardonnay, pinot noir, pinot meunier e vinho de reserva também é diferente da versão brut. “Não é só colocar uma pedra de gelo no demi-sec. Há um trabalho do enólogo para que o champanhe mantenha a sua qualidade com o gelo”, explica Degesse.

É uma fórmula especial que, pelo jeito, vem conquistando o consumidor. Afinal, como afirma Mevel, da Chandon, há o hábito de certos apreciadores colocarem pedras de gelo na maioria das bebidas que consomem. “E, ainda, em lugares onde faz muito calor, as pedras de gelo junto com o espumante seguram a temperatura perto do ideal para a degustação”, conclui o enólogo.

* Reportagem publicada na edição 214