Coluna

Sem porco e nem cachaça, chef adaptou receitas brasileiras no Kuwait

por Paulo Machado*

Rumo ao Oriente Médio, terra do deserto, dos emirados e das mil e uma noites, eu levava duas malas de 32 quilos praticamente abarrotadas de ingredientes brasileiros, dentre eles muita farinha de mandioca para transformar em farofa. A recomendação para aquele que foi o 1º Festival de Cozinha Brasileira na cidade do Kuwait era de que os árabes comiam muito e gostavam de churrasco. Mas eu quis ir além: resolvi apresentar menu com sabores de cada canto do Brasil. Levei erva-mate, colorau, dendê, tucupi, polvilhos, fubá, pequi e guariroba em conserva.

Duas importantes restrições me foram impostas: era terminantemente proibido ingressar no país portando bebida alcoólica ou carne de porco. Um paio para feijoada então? Nem pensar. A solução foi substituir nosso prato nacional por um rico feijão preto com charque de boi, que aprendi a comer com minha amiga Madá na barraca de Niro, dentro do Mercado de São José, em Recife.

No Kuwait, por conta das rigorosas leis do Corão, não existem baladas. As pessoas quando saem para se divertir vão a um café, confeitaria ou jantar nos restaurantes – e acabam a noite lá mesmo. O festival brasileiro tinha DJ e durante aquele finalzinho de ano, em 2012, tornou-se um programa badalado na cidade. As reservas do luxuoso restaurante Luna, no terraço do Hotel Missoni, estavam tomadas. Locais e estrangeiros vinham ávidos em busca do pão de queijo, churrasco e brigadeiro. Acabavam provando também: moquecas, chibé, xinxim, bolinho de bacalhau. Até o estrogonofe à moda brasileira que preparei caiu no gosto das arábias.

Recorrente era o pedido da clientela para que eu fizesse caipirinha. Sem álcool para o preparo, a missão era impossível. Finalmente criei um refrescante suco de limão com açúcar mascavo, bastante gelo e tônica, que os comensais provaram e se refestelaram com a alegria de sentirem um pouquinho de Brasil naquela limonada metida a besta.

Três semanas passadas de muito trabalho, saía daquele pequenino e suntuoso país admirado com os contrastes. Tantas coisas importadas que chegavam da Europa, desde trufas frescas de Alba a macaron da Ladurée de Paris, até a carne bovina australiana ou o frango que chegava do Brasil. E do Souq (mercado local), trouxe azeitona, tâmaras, açafrão e uma boa história pra contar.

* Texto publicado na coluna da Terra Estrangeira, da edição 215