Coluna

Doces feitos pela tia de Paulo Machado salvam jantar em Roma

Depois de confeiteiro deixá-lo na mão em jantar brasileiro realizado em Roma, o chef apelou para os talentos de doceira da sua tia Sandra

por Paulo Machado*

Faltavam menos de dez dias para o Brazilian Food Week em Roma, marcado para maio de 2014, e meu chef confeiteiro teve de cancelar sua ida ao festival. Fiquei desesperado, pois precisaria arranjar com urgência alguém habilidoso em fazer doces, com disponibilidade e passaporte em dia. O jeito foi botar a boca no trombone…

Eis que um primo meu lembrou: “Vai cozinhar na Itália, por que não leva tia Sandra? Além de estudar italiano, ela faz doces como ninguém.” Pois adorei a ideia. Nunca comi um pudim de claras melhor que o dela, receita de sua família portuguesa. Quindim, brigadeiros e bolos nunca faltavam em sua casa. Quando o convite foi feito, ela titubeou achando uma loucura, mas falou que sempre teve o sonho de me acompanhar nos eventos pelo mundo. Para meu alívio, ela topou.

Ao apresentar minha tia à equipe da cozinha do Radisson Blu es. Hotel, onde aconteceria o festival, anunciei: “Dona Sandra Barbosa, minha confeiteira”. Expliquei apreensivo ao chef Carmine Nozzolino que Sandra tinha prática em doces brasileiros, porém nunca havia trabalhado em um restaurante profissional. Ele abriu um sorriso e disse: “Bravissimo!”. Passei a me sentir mais confortável com a aprovação. Ali entendi todo o valor que italianos dão à tradição da comida de casa, a história, as receitas. No final, a cozinha de confeitaria do hotel foi invadida por cozinheiros e estagiários que desejavam aprender com minha tia os segredos dos doces brasileiros.

O público que frequentou o evento aprendeu que a comida brasileira não é só churrasco e feijoada. Servi barreado, moquecas, acarajé, tacacá, farofas, xinxim, carreteiro e, claro, muitos doces feitos pela tia Sandra. Os italianos adoraram o quindim! O brigadeiro foi o mesmo das festas infantis: com granulado e leite condensado vindos do Brasil, em forminhas de papel brilhante. O famoso Romeu e Julieta teve uma releitura à italiana, com goiabada cremosa brasileira e o tradicional parmesão italiano. Ela até se arriscou a fazer um “gelato” de tereré!

O aprendizado foi grande não só para os italianos. Durante a semana de intenso trabalho, tia Sandra viu que a realidade do dia a dia da cozinha profissional é bem diferente e menos glamourosa do que é mostrado na televisão…

* Texto publicado na coluna da Terra Estrangeira, da edição 216 (abril/2017)