Bebida

A pequena Sainte-Croix-du-Mont produz bons vinhos de sobremesa

A sémillon, uva típica da região, atacada pela botrytis (fotos: Felipe Campos)

por Felipe Campos, de Bordeaux* 

A uva sémillon brilha na pequena apelação de Sainte-Croix-du-Mont, a mais importante região francesa de vinhos doces no lado direito do rio Garonne – a nobre e soberana Sauternes está na margem oposta do rio, também ao sul de Bordeaux. Assim como a famosa apelação, em Sainte-Croix-du-Mont, as uvas são atingidas pelo botrytis cinérea, fungo que ataca e seca a fruta, gerando o fenômeno batizado de podridão nobre. A névoa matinal, que marca a paisagem na primavera (período de maturação da uva), e o calor durante o dia, também nessa época, criam as condições ideais para o desenvolvimento desse fungo, responsável por um vinho doce, mas com boa acidez.

Com o solo de ostras fósseis, da era terciária, a cidade tem as grutas como um dos pontos turísticos (fotos: Felipe Campos)

Mas há diferenças entre esse vilarejo com pouco menos de 400 hectares de vinhedos, cultivados desde o tempo da conquista da Gália, por Júlio César em 471 d.C., e a conhecida Sauternes, com seus quase 1.800 hectares de vinhas. Sutis diferenças que a tornam uma parada obrigatória para quem procura vinhos botritizados de bom custo-benefício e que ficam prontos para beber mais cedo. Isso porque Sainte-Croix-du-Mont tem uma característica peculiar: seu solo. “Estamos em um planalto formado por bancos de ostras fósseis da era terciária”, explica Arnaud de Sèze, dono do Château Loubens, um dos principais produtores da região. É um terreno muito bom para o cultivo de uvas brancas e que tende a resultar em vinhos com bons toques minerais. Outros châteaux locais que merecem atenção são o La Rame e o Arroucats, segundo o site da inglesa Jancis Robinson – e nenhum deles têm representante no Brasil.

Arnaud Sèze, dono da Château Loubens, rotula a garrafa da safra de 1971

Os vinhedos e as caves de Sainte-Croix-du-Mont ocupam uma área que, no passado distante, já foi mar. A própria cave do Château Loubens foi escavada nesse solo repleto de conchas, visíveis a olho nu. É com orgulho que Sèze abre as antigas portas de madeira para mostrar aos visitantes a sua “caverna” de conchas, onde ele amadurece os seus vinhos, de safras recentes e também de décadas mais antigas. São brancos doces, elaborados apenas com a sémillon – apesar de, assim como em Sauternes, o plantio da sauvignon blanc também ser autorizada –, que vem de seus 16 hectares de vinhedos. As duas variedades, aliás, reinam em todas as denominações ao sul de Bordeaux que elaboram vinhos doces: além de Sauternes e Barsac, as mais conhecidas, e Sainte-Croix-du-Mont, há Saint-Macaire, Loupiac, Cérons, Cadillac, Saint Foy de Bordeaux, entre outras. Vale citar que nem sempre o fenômeno da botrytis  acontece e aí os vinhos doces são elaborados pela prática de colheita tardia (com a uva já bem madura na vinha).

A garrafa do Château Loubens

Na escuridão da cave do Château Loubens, repousam apenas as garrafas, ainda sem rótulos, as velhas barricas de carvalho, que não mais utilizadas, e alguns morcegos, que escolheram a caverna como morada. Sèze prefere envelhecer seus vinhos sem o estágio em barricas de carvalho. Se a cave lembra uma casa de Hobbit (personagens da saga O Senhor dos Anéis), a pequena e desorganizada vinícola traz um sopro de modernidade: as prensas verticais de madeira, deixadas para decoração, dão lugar a uma prensa pneumática. “Não tenho mais idade para isso”, diz ele, sobre o tempo que ele mesmo conseguia rodar a prensa para extrair o sumo das uvas e levá-lo a fermentar. Na vinícola, ainda, tanques de aço inox dividem espaço com os de cimento, mais antigos, sendo que os dois são utilizados na elaboração do vinho. O tom artesanal do château continua no engarrafamento: tanto a colocação da cápsula como dos rótulos são feitas manualmente, num trabalho tão artesanal e preciso como admirável.

Sem herdeiros, Sèze não apenas recorreu aos imprescindíveis instrumentos mais modernos como decidiu colocar a vinícola à venda. Está pedindo 500 mil euros pela propriedade. Enquanto não fecha o negócio, o francês divide seu tempo entre a vinícola, os vinhedos e a cave. Gosta de receber os visitantes – o château é aberto ao público, em horário comercial – e se encanta quando as pessoas lhe pedem safras mais antigas. Em meados de junho, por exemplo, ele vendeu o seu vinho da safra de 1971 por 40 euros. “Trop cher (muito caro)?”, perguntou, com um sorriso.

* Reportagem publicada na edição 221 (setembro/ 2017)