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Sobá: pedacinho do Japão na cultura brasileira

Por Paulo Machado

Já era quase hora de criança ir para a cama, mas o programa fazia parte da rotina: às quartas-feiras, meus pais e de outras milhares de famílias campo-grandenses levavam os filhos para comer na “feirona”. Assim chamávamos a feira noturna dominada por agricultores e cozinheiros imigrantes do Oriente, que escolheram o coração de Mato Grosso do Sul para fazer morada. Íamos em busca do sobá: caldo de carne, com massa tipo espaguete, guarnecido de omelete cortado bem fininho, cebolinha picada e pedaços de carne de porco ou filé-mignon. Meu pai pedia também um espetinho de granito (carne gorda) para compartilharmos. Acompanhava vinagrete e mandioca ouro – macia, douradinha e típica da minha região – que, quando chegava à mesa, era regada com shoyu, outro hábito característico dos meus conterrâneos.

No final dos anos 1990, sob protestos, a grande feira, que ocupava quase um quilometro de rua, foi transferida para um novo local, mais limpo, arrumado e “pasteurizado”. Segundo a gestão da prefeitura na época, foi uma forma de manter a tradição da “feirona” viva na cidade, porém em um local mais amplo e arrumado. Infelizmente aquela antiga feira, de ares tão orientais, ficou na saudade. Hoje, passados quase 20 anos, posso dizer que a Feira Central perdeu um pouco de sua originalidade, mas ainda é um dos pontos obrigatórios para o turista que visita Campo Grande. As barraquinhas atuais, depois de um tempo, passaram a ganhar identidade própria e a qualidade do sobá e espetinho encontrados superou a saudade da “feirona”.
Quando visitei o Japão pela primeira vez, procurei muito o sobá que tomo desde a infância, mas aos poucos fui vendo que a busca era em vão. Não que o nosso ensopado fosse ruim, e de longe uma caricatura, mas é que lá existem muitas formas de “soba”, com variações de caldos e massas. O que dá origem ao nosso é o soba de Okinawa, afinal, foi desta região que veio o maior número de imigrantes japoneses viver no Centro-Oeste brasileiro. Feito com massa de trigo branco que lembra o udon, leva caldo de porco com katsuobushi (flocos de peixe) e alga kombu, acompanhado de barriga do porco, kamaboko (bolinho de peixe) e um picles de gengibre. A receita japonesa, que aqui chegou, adaptou-se ao nosso paladar e aos ingredientes daqui. E quem a prova fica com saudades e vontade de voltar a Campo Grande.

Onde tomar sobá:

Em Campo Grande: na Feira Central – Barraca da Níria (rua 14 de Julho, 3.351, centro, tel. (67) 3317-4671) e na Sobaria Shimada (rua Antônio Corrêa, 776, Jardim Monte Líbano, tel. (67) 3324-9752)

Em São Paulo: na Sobaria – Cozinha Sul Mato-Grossense (rua Áurea, 343, Vila Mariana, tel. (11) 5084-8014)