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Gingado brasileiro nos EUA

Por Machado

Emoção à flor da pele. Era o que sentia naquele setembro de 2012, quando embarcava para a nação do fast-food com malas e mais malas recheadas de ingredientes brasileiros. O destino era The Universities at Shady Grove, em Rockville, próximo a Washington, D.C., onde a cozinha brasileira seria apresentada em aula especial no evento Community Day.

A felicidade era dupla: primeiro, por reencontrar o chef Franz Corrales, amigo de longa data e um dos organizadores do evento; segundo, por conseguir entrar na capital norte-americana com ingredientes genuinamente brasileiros, como óleo de castanha-do-pará, priprioca, farinha-d’água, boi-pá (doce de abóbora em casca, típico de Cuiabá), cachaças mineiras, goiabada, azeite de dendê baiano, colorau capixaba, até erva para fazer o chá-mate.

Mesmo com tantos produtos, ainda faltavam ingredientes in natura para fazer alguns pratos em aula. Por isso, meu amigo Corrales me levou ao mercado. Mas, para meu espanto, era oriental. Segundo ele, ali era o único lugar em que eu iria encontrar de tudo. Realmente, era bem completo, tanto que comprei farinha de tapioca com diferentes granulações (afinal, ela é muito apreciada na Ásia). Mas não dei sorte com a mandioca: vinda de alguma ilha caribenha, era recoberta de cera, para conservar melhor durante a longa viagem. E a maioria já estava passada, com cheiro azedo, uma tristeza. Assim que consegui separar algumas em boas condições, partimos para a Universidade.

O evento foi um colosso. Além dos 60 alunos na cozinha show, outros 500 puderam acompanhar a aula transmitida pelos televisores espalhados em todo o campus da universidade. Lá fora também aconteceram danças folclóricas, artistas pintando o rosto das crianças de verde-amarelo e exposição de quadros do consulado brasileiro. Durante a aula, mostrei como se rala e se espreme a mandioca para fazer seus subprodutos. E, com a ajuda do chef Corrales e sua equipe, preparei miniporções de carreteiro e moqueca, para que todos provassem. O trabalho foi gratificante: ao final da aula, muitos alunos me pediram para autografar um cartão que tinha minha foto com a receita atrás, em um momento que me senti um “pop star” na terrinha do Tio Sam, além da sensação de dever cumprido em mostrar àqueles estudantes que comida boa dá trabalho, dispõe de tempo e ingredientes de origem.