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Sem cebola e alho no Líbano

Por Paulo Machado

Em 2014, a poucos dias da Copa do Mundo (aquela do 7 a 1, que gostaríamos de esquecer), estava chegando com o chef carioca Erik Nako em Beirute para realizar o Brazilian Gastronomy Festival, no hotel Le Grey, a convite da embaixada do Brasil.
E nos sentimos em casa desde o primeiro instante: a capital libanesa estava verde-amarela. Amantes do futebol, eles também torciam por nós. Um dos óbvios motivos do carinho que os libaneses sentem pelo Brasil foi a grande migração para nosso país, que nos influencia até hoje na cultura e gastronomia. Uma curiosidade: durante a viagem, soube que o maior incentivador da onda migratória foi Dom Pedro II, que esteve no Oriente Médio no fim do século 19.

Para o festival, o chef do hotel pediu que criássemos um menu com algumas opções de entradas, principais e um “plateau” de sobremesas. Nosso gol era mostrar que a cozinha brasileira não tem só churrasco e feijoada. Escolhemos pratos emblemáticos e que pudessem satisfazer diferentes gostos. De entrada, tínhamos a opção da casquinha de siri ou um vinagrete de frutos do mar e pimenta cumari. Depois, o comensal poderia escolher entre o bobó de camarão e a moqueca capixaba com farofa de banana. E de principal, servimos a carne de sol com molho de melado, pimenta biquinho, acompanhado de pirão de queijo. E a outra sugestão era o pato no tucupi com miniarroz de jambu e farinha-d’água. Para sobremesas, um pot-pourri com miniquindim, bolo Romeu e Julieta e musse de brigadeiro.

Na noite de abertura, o maître anunciou que receberíamos alguns convidados especiais da imprensa, dentre eles, um crítico local importante. O detalhe é que ele tinha duas importantes restrições de alimento: não comia nem alho, nem cebola.
Quebramos a cabeça e apresentamos nossos preparos sem, talvez, os principais ingredientes que dão alma a qualquer início de preparo à panela brasileira. Substituímos os condimentos por alho-poró e o resultado agradou o paladar do crítico, que registrou no seu blog a seguinte impressão da nossa cozinha: “Essa foi a primeira vez que encontrei a comida brasileira. Essa experiência saborosa me deu vontade de conhecer o Brasil e sua rica culinária.” Marcamos gol de placa!