Coluna

Mais água no feijão “noir”

Por Paulo Machado 

No mês de aniversário da Menu, rememoro com entusiasmo as alegrias vividas em uma das escolas de cozinha mais importantes pela qual passei. Afinal, em 2017, comemoro 11 anos de estudo e amizades no Institut Paul Bocuse.

Parecia a festa das nações na França. O “clipper” (residência de estudantes) ficava cheio de vida todas as tardes, quando jovens de diferentes nacionalidades ocupavam seus corredores e quartos após o dia de muita labuta e aprendizado no castelo do Instituto, localizado nos arredores da grande Lyon.

Era nesse momento que aproveitávamos para mostrar um pouco do que cada um trazia de sua terra, não só em histórias e sotaques, mas também na gastronomia. Invadíamos a pequena cozinha do refeitório para preparar algum prato típico. Ali provei delícias como karê japonês, noodles da Coreia do Sul, mezcales e moles mexicanos, cozido de porco com Coca-cola feito pelos chineses, a “causa” peruana e, do Brasil, bem… Do nosso país compartilhávamos constantemente duas das nossas principais iguarias: a farinha de mandioca, que rendia deliciosas farofas ou entrava no prato só pra espessar um guisado e matar saudades da nossa terra, e o café, que fazia muito sucesso com os estrangeiros.

Tinha outro ingrediente que fazia alegria de todos, mas aparecia poucas vezes (só quando chegava pelo correio ou por algum parente que vinha nos visitar): o leite condensado. Afinal, é a matéria-prima para fazer nosso doce representativo. “Vote no brigadeiro, ele é bonito e é solteiro”, lembrava Lia, nossa colega confeiteira ao preparar a iguaria.

Um dia preparamos uma feijoada, feita num esforço coletivo entre os colegas brazucas. Thais, Ligia e Andrea tinham o feijão e a carne de sol. Erik e Thiago se incumbiram dos embutidos. Até Pamela e Franz, amigos peruanos e bolivianos, respectivamente, contribuíram com cecina de porco (a carne de fumeiro deles). Oferecemos a feijuca a todos os estrangeiros da residência, convidamos até alguns chefs professores. E a comemoração foi o aniversário do Lucas, um dos nossos colegas. Claro, fizemos aquela festa, com direito a caldinho de feijão e até caipirinha.

Ali, naquela simbiose de culturas, aprendi a dar mais valor para os ingredientes de verdade, trazidos na mala de cada um. O valor que realmente conforta.