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Viviana Navarrete e os desafios das mulheres nas vinícolas chilenas

A enóloga chilena Viviana Navarrete, da Viña Leyda (Foto: Grand Cru/Divulgação)

Por Suzana Barelli

Próximo ao Oceano Pacífico, a Viña Leyda é uma das poucas vinícolas no vale de nome homônimo, no Chile. Relativamente novo na história chilena – as primeiras vinhas foram cultivadas por lá em meados da década de 1990 –, o vale se caracteriza pelas uvas brancas e as variedades tintas bem adaptadas ao clima frio, como a pinot noir. O vale também desafia o trabalho dos enólogos, que a cada safra aprendem mais com as particularidades desta região.

Na Viña Leyda, este desafio cabe a uma mulher: Viviana Navarrete. São delas os vinhos frescos, com notas nítidas de frutas e muita complexidade, por aqui importados pela Grand Cru. Com 18 anos de enologia, hoje Viviana fala com naturalidade sobre os brancos e tintos e os desafios da região, em um espaço que ela conquistou com muitas horas de trabalho, dedicação e perseverança, como ela conta na entrevista a seguir. Confira:

Por que você decidiu estudar e trabalhar com enologia?
Sempre gostei muito de biologia e química e são matérias presentes no curso de agronomia (no Chile, para ser enóloga, deve-se estudar agronomia). Sempre gostei do contato com a natureza e isso era algo que me apaixonava na minha carreira. Na época em que eu estava estudando na universidade, a indústria vitícola chilena começou a ter grandes avanços na tecnologia, investimentos, descobrimentos de novos vales. Também começou fortemente o interesse das vinícolas de fortalecer os vinhos premiuns. Havia muitas coisas positivas acontecendo na indústria, que chamaram minha atenção. Por outro lado, a enologia era uma área onde as mulheres poderiam ter boa projeção e mais oportunidades, comparado com especialidades como economia agrária, a produção de frutas e de animais, que são áreas mais machistas.

No Chile, há grandes enólogos, mas poucas enólogas, ocupando  cargos de primeira linha nas vinícolas. Por que isso acontece, na sua opinião?
Na minha opinião, a enologia é uma carreira que exige muito tempo e nem todas as mulheres têm esta resistência, esta disponibilidade. Especialmente na época da colheita, são longas horas de trabalho por três meses. Trabalha-se nos finais de semana, chega-se tarde em casa, percorre-se longas distâncias para estar nas adegas, visitar os vinhedos, ver as datas de colheita etc. Nem todas as mulheres aguentam este ritmo. E, depois, durante o ano, você precisa viajar para apoiar os mercados, as vendas, participar das feiras etc. Eu acho que para as mulheres que têm família e são mães é muito difícil manter este ritmo e elas são muito sacrificadas.

Quais são os desafios que as mulheres encontram para elaborar vinhos e liderar vinícolas?
Acredito que não temos desafios para elaborar vinhos. Agora, para liderar as vinhas, eu acho que a indústria chilena mudou muito. Embora seja verdade que os homens dominam este mercado, hoje mais e mais mulheres estão encarregadas de projetos vitivinícolas. É uma mudança lenta, mas está avançando. No passado, eu era sempre a única mulher em degustações, em feiras e seminários, em exposições internacionais. Hoje, vejo que cada vez há mais presença feminina e não apenas como enólogas responsáveis ​​por marcas de vinho, mas também mulheres gerentes de marketing ou chefes de controle de qualidade. Também podemos ver muitas mulheres na posição de gerente de exportação, o que anteriormente era impensável. Então, acho que passo a passo as mulheres abriram o caminho. A área agrícola é uma área machista, mas as mulheres com esforço e dedicação estão ganhando espaço.

Na sua opinião, há diferenças na maneira em que homens e mulheres elaboram um vinho? Quais são estas diferenças?
Pessoalmente, penso que as mulheres produtoras de vinho, talvez involuntariamente, fazem vinhos mais delicados do que os homens. Talvez favorecendo um perfil mais fresco e perfumado, com menos extração, vinhos menos musculosos. Isso sempre acontece comigo, mas eu trabalho com variedades brancas ou tintas suaves como a pinot noir, em uma região de clima frio. Então, é claro que o estilo deveria ser assim: vinhos minerais, delicados e vibrantes. Mas, ao mesmo tempo, já aconteceu várias vezes de jornalistas ou clientes falarem que meus vinhos são “femininos”, que se percebe que são feitos por uma mulher. Eu sorrio porque isso não é voluntário, mas acredito que as mulheres dão um toque mais delicado aos vinhos e são diferentes daqueles feitos pelos homens.

Quais os maiores desafios que você enfrentou no Chile como enóloga?
Quando comecei a trabalhar nos vinhedos, tive de demonstrar com muita responsabilidade, sacrifício e horários de trabalho que eu conseguia ser tão eficiente quanto os homens. Trabalhei assim por seis anos (o que digo que foi o meu “serviço militar”) e então me tornei enóloga chefe da Viña Leyda. Quando cheguei à Viña Leyda, passei os dois primeiros anos demonstrando que eu era capaz e digna da posição; ganhando a confiança dos gerentes porque se havia qualquer apreensão no trabalho, eles me compararam constantemente com os homens do campo. Naquela época, eu me sentia na mira e constantemente avaliada. Foi muito difícil e muito sacrificante. Mas o tempo demonstrou que quando se é responsável, comprometida, meticulosa e tem muita paixão pelo trabalho, obtém-se os resultados tão desejados e muito mais. Hoje, quando olho para trás, vejo que a indústria no Chile mudou muito durante esses 18 anos em que tenho trabalhado. A chave para o sucesso é, sem dúvida, o amor e dedicação que se coloca ao trabalhar. E definitivamente a enologia é um trabalho de paixão.