Bebida

Irmãs ‘gêmeas’ cervejeiras: conheça o processo parti-gyle

Don't Call Me Lager, da cervejaria Dádiva (Foto: Divulgação)

por Roberto Fonseca

Quando estimulada por cerveja, a mente humana pode jogar luz sobre os escaninhos mais empoeirados e escuros da memória. Só isso justificaria a lembrança do filme Irmãos Gêmeos (1988), com Arnold Schwarzenegger e Danny DeVito, ao buscar comparações para explicar o processo cervejeiro parti-gyle. No filme, o personagem de Schwarzenegger é resultado de um experimento genético em busca do “homem perfeito” forte e culto. Mas, para surpresa dos cientistas, o processo também acaba dando à luz o irmão vivido pelo baixinho DeVito. O resto é história para sessões vespertinas de TV.

Em linhas gerais, o sistema parti-gyle consiste em obter mais de uma cerveja de uma mesma batelada, pela produção de diferentes mostos (líquido açucarado resultante da imersão dos maltes moídos em água aquecida). O primeiro é mais concentrado, atingindo teores alcoólicos mais elevados. O segundo, mais diluído, origina cervejas menos alcoólicas, mas não menos interessantes, já que é possível utilizar diferentes lúpulos, leveduras e adjuntos (temperos, por exemplo), para dar um perfil totalmente diferente à “irmã menor”.

O processo foi utilizado por quatro cervejarias ciganas de São Paulo – Demonho, Infected, Molinarius e Sunny Brew – para criar duas IPAs. A Demon Mill, a “irmã maior”, foi chamada de Quad IPA, tem 14% de teor alcoólico e 140 Unidades de Amargor (mais de 14 vezes o que se encontra em uma “loura gelada”); seu perfil é mais denso e equilibrado entre dulçor e amargor. A Wild Sun tem 4% e 40 IBUs, mas uma pegada mais leve e seca.

Experiências similares já foram vistas no mercado brasileiro. No primeiro caso, a norte-americana Anchor produz a American Barleywine Old Foghorn, com 8,8% de teor alcoólico. Com uma adição extra de água sobre os maltes, surge a Small Beer, com 3,3%. A primeira continua à venda por aqui, mas a segunda, infelizmente, não. No plano local, a gaúcha Seasons, de Porto Alegre, lançou há alguns anos a Limbo, uma Session Stout de 3,7%, cujo protótipo surgiu de uma segunda lavagem dos maltes da Coffee Stout Cirilo (6,8%) e depois ganhou vida própria em um rótulo comercial. Embora a “irmã maior” tenha se mantido em linha, a Limbo, com o perdão do trocadilho, ainda aguarda uma segunda chance de sair de si própria e voltar às prateleiras.

Estou bebendo – Dádiva Don’t Call Me Lager
Apesar do irônico nome, trata-se de uma cerveja de baixa fermentação Doppelbock. Boas notas de caramelo, frutas escuras e tostadas, com corpo denso e álcool perceptível, mas não exagerado. Custa R$ 44,99 (500 ml) no Beer4U.